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quarta-feira, 28 de março de 2012

Percepção VS Realidade

Actualmente, muitas vezes os casais jovens têm pouco contacto com famílias com crianças pequenas, antes de serem pais, e a realidade da maternidade por vezes é fantasiada pelo que os media nos transmitem...


Ter um bebé também significa deixar um pouco de caos entrar na nossa vida, tornarmo-nos mais tolerantes, mais flexíveis... dar mais sem esperar receber nada em troca... Não vem tudo em cor-de-rosa e azul bebé como nos vendem nas lojas de artigos de puericultura...

Estão preparados para esse desafio?


segunda-feira, 26 de março de 2012

A Maternidade muda o cérebro das mulheres, tornando-as mais inteligentes

Algumas mulheres queixam-se de falta de memória e concentração depois de ter o seu bebé e mesmo passado algum tempo após o parto. Como se nos tornássemos "tontas" depois de ser mães. Mas nada está mais longe da realidade.

Katherine Ellison, uma jornalista americana premiada con o Pulitzer, questionou-se há alguns anos se a maternidade, de facto, nos tornava menos inteligentes, e o resultado da sua investigação foi publicado no seu livro "O Cérebro da Mamã. Como a maternidade nos faz mais inteligentes". Parece que o estigma da lentidão mental associado à maternidade é injusto e falso.

As mães, ao dar à luz, têm que fazer frente a uma multiplicidade de novas tarefas ao mesmo tempo. Para assegurar a sobrevivência do bebé, a progenitora tem de priorizar, o que leva a uma maior eficiência. É habitual estar a cozinhar e a falar ao telefone, aproveitar as sestas do bebé para colocar roupa a lavar, fazer as camas e varrer. Aproveita-se o tempo ao segundo! Tudo isto numa sociedade onde se exige muito a uma nova mãe.


Seguramente, a mente de uma mãe não está para memorizar certos detalhes que são supérfluos em comparação a cuidar do seu bebé, o seu cérebro está muito ocupado. Tem um objectivo de maior transcendência: criar um ser humano. 

Ler o artigo na íntegra AQUI

sexta-feira, 15 de abril de 2011

De casal a família


Quando nasce um bebé o relacionamento entre o casal altera-se. E normalmente este é mais um dos temas do qual não se fala muito...

Muitas vezes o par é apanhado de surpresa por toda a atenção que um bebé exige, e que deixa pouco ou nenhum tempo para a relação a dois.

A mãe, nos primeiros tempos, dedica-se exclusivamente ao bebé, a cuidá-lo, a amamentá-lo, o que só por si a deixa bastante cansada e menos disponível para namorar (até por questões hormonais). O papel do pai seria o de apoiar a mãe em tudo o que esta necessita, para que possa cuidar do bebé e descansar quando possível. O pai deveria compreender que isto é uma situação temporária e que nesse momento se deveria dar prioridade ao bebé. Mas será que todos aceitam dar sem esperar nada em troca...?

"O pai apoia a mãe para que esta possa criar o bebé; a mãe apoia o crescimento e desenvolvimento vital do filho; o filho recebe todo o amor que precisa para crescer em harmonia. E pronto...? Não, não é assim tão fácil. Porque não basta saber isto. É preciso compreendê-lo profundamente, integrá-lo, harmonizar esta informação com as nossas próprias necessidades, estarmos consciêntes das nossas carências, testar os nossos limites, enfrentarmos os nossos receios. Ser mãe ou pai implica uma revolução interior da qual há que saír fortalecido ou cheio de rancor e exaustão."

Continua aqui.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Disponibilidade Para Amamentar

Somos mamíferos- ainda que esquecemos- porque temos mamas. E todas as mamíferas foram designadas para amamentar suas cria. Portanto, todas somos capazes de nutrir ao bebê recém nascido com o leite que vem naturalmente do interior de nosso corpo. É verdade que o conceito “natural” está completamente manipulado pela cultura, por isso nos ater ao que é ou não “natural” costuma parecer-nos bastante complexo.

Então depositamos tantas fantasias no alimento, no que é bom ou não oferecer ao bebê, que o “dar de comer” se converteu em todo um problema para as mães modernas. Inclusive dar de mamar passou a ser algo difícil de conseguir, algo que há que superar, controlar e estudar ao pé da letra para ter sucesso. É estranho que em somente 50 anos da recente história é esquecemos a natureza, a simplicidade e o silêncio com que as mulheres sempre amamentaram aos nossos filhos desde que existe a humanidade.

A realidade é que a amamentação é fundamentalmente contato, conexão, braços, silêncio, intimidade, amor, doçura, repouso, permanência, sono, noite, solidão, fantasia, sensibilidade, olfato, corpo e intuição, ou seja, tudo é muito distante das receitas pediátricas e de todos os “deve ser” que pretendemos cumprir no papel de mães.

A amamentação falha quando a colocamos dentro dos parâmetros de “melhor alimento”. Quando calculamos, medimos, pesamos ou estamos atentas às quantidades e tempos em que o bebê tomou ou deixou de tomar. Não se trata de pensar no que come. Se trata de estar junto. É algo tão “natural” que esquecemos-o. Porque quase não mantemos relações afetivas de modo simples, sem projetos nem objetivos.

Para ser uma boa mãe, acreditamos que devemos dar ao bebê o melhor. E se o melhor não é quantificável, a amamentação falha. A questão vai além dos desejos ou ilusões sobre um bom alimento, somos um exército de mães que não podemos dar de mamar aos nossos filhos, somos mães a quem nos sangram os mamilos, nos ferem e o pior de tudo: o bebê volta a pedir como se não houvesse sido suficiente o que mamou uma hora antes. Temos a sensação de que as contas nunca dão bons resultados em matéria de amamentação. Não se pode viver assim!

Pensemos que nenhuma de nós cria seus próprios filhos de modo diferente de como vive a vida cotidiana. Se somos obsessivas e cuidadosas, assim seremos no vínculo com o bebê, se temos postas nossa identidade no sucesso profissional, assim seremos com o bebê. Se não podemos deixar de pensar, assim seremos com o bebê. Se temos milhões de interesses pessoais, assim seremos com o bebê. Se a autonomia e a liberdade pessoal são pilares da nossa identidade, assim seremos com o bebê. Se nos nutrimos das relações sociais, assim seremos com o bebê. Enfim, revisando a vida que construímos antes do nascimento do bebê, poderemos reconhecer facilmente que distância há entre nossa vida e a proposta para uma amamentação feliz. Não uma amamentação com sucesso, porque ao bebê não lhe importa o sucesso, o aumento de peso segundo as curvas estabelecidas ou as horas de sono. Falo de felicidade e do bem-estar do bebê. Falo do bebê conectado, que busca o olhar da mãe e sorri. Falo de bebê que não se conforma se não está no colo. Falo do bebê sereno na medida em que perceba um máximo de prazer.

Prazer e conforto, para um bebê recém nascido, é tudo o que se assemelhe ao útero onde morou por 9 meses. Ou seja, contato permanente, alimento permanente, movimento, calor, ritmo cardíaco, suor, odor e o doce timbre da voz de sua mãe. Se isto se sucede, o leite materno flui. Não há mais segredo que o repouso, a disponibilidade corporal, a intimidade e a disposição para ter o bebê “sempre coladinho” durante as 24 horas do dia.

Porém, a realidade cotidiana das mulheres é muito distinta. Acostumamos nos preparar para o parto, mas não para a maternidade. Ou, em todo caso, não nos preparamos para abandonar a autonomía que adquirimos com muito esforço e vontade.

Portanto, digamos com todas as letras: para dar de mamar temos que estar dispostas a perder toda a autonomia, liberdade e tempo para nós mesmas. É uma decisão. Na medida em que optemos por uma modalidade, perderemos vantagens na outra. Explicando de outra forma: se nos apegamos a nossa liberdade pessoal, possivelmente o bebê tenha que se conformar com outros alimentos, porque mãe e filho não encontrarão prazer nem relaxarão na amamentação. Ou, ao contrário, se decidimos dar prioridade a amamentação, perderemos liberdade e vida própria.

Ambas as situações, amamentação e liberdade, não são compatíveis. Ninguém pode determinar o que é que cada qual deve fazer. Mas sim é importante que saibamos o que ganhamos e o que perdemos frente a cada decisão.

Gutman, Laura. Livro: A revolucao das maes: o desafío de nutrir aos nossos filho, pg 99-101
Por Laura Gutman
Tradução: Sandra CP.

quarta-feira, 2 de março de 2011

"Não quer dormir sozinho" por Laura Gutman

É claro que as crianças não querem dormir sozinhas! Não querem, nem devem. Os bebês que não estão em contato com o corpo de suas mães, experimentam um inóspito universo sombrio que os afasta do desejo de bem estar que traziam consigo desde o período em que viviam no ventre amoroso de suas mães. Os recém-nascidos não estão preparados para um salto no escuro: a um berço sem movimento, sem cheiro, sem som, sem sensação de vida.

Esta separação do corpo da mãe causa mais sofrimentos do que podemos imaginar e estabelece um contra-senso na relação mãe-filho. Não há nenhum problema em trazer as crianças para nossa cama. Todos estaremos felizes. Basta experimentar e constatar que a criança dorme sorrindo, que a noite é suave e que nada pode ser contraproducente quando há bem-estar. Lamentavelmente as jovens mães desconfiam da própria capacidade de compreender os pedidos dos filhos, que são inconfundivelmente claros. É socialmente aceita a idéia de que satisfazer as necessidades de um bebê o transforma em “mimado”, ainda que obtenhamos na maior parte das vezes o resultado oposto do esperado, já que na medida em que não dormimos com nossos filhos, nem os tocamos, nem os apertamos, eles nos reclamarão mais e mais.

Pensemos que o “tempo” para as crianças pequenas é um momento doloroso e comovente se a mãe não as acode, ao contrário das vivências intra-uterinas, onde toda a necessidade era atendida instantaneamente. Agora, a espera dói. Se as crianças precisam esperar muito tempo para encontrar conforto nos braços de sua mãe, se aferrarão com vigor aos seios, mordendo, ferindo-os ou chorando, assim que consigam este acesso. O medo será a principal companhia, pois saberão que a ausência da mãe voltará a qualquer momento a assombrá-los. As crianças tem o direito de exigir o contato físico, já que são totalmente dependentes dos cuidados maternos. Têm consciência de seu estado de fragilidade e fazem o que toda criança saudável deve fazer: exigir cuidados suficientes para sua sobrevivência. A noite é longa e escura, e nenhuma criança deveria passar por isso sozinha.

Até quando? Até que a criança não precise mais.

Laura Gutman

Publicado originalmente en la Newsletter de Marzo de 2011

http://www.lauragutman.com/newsletter/laura_gutman_mar11.html

Tradução livre de Bianca Balassiano Najm

sábado, 19 de junho de 2010

Amamentação e depressão materna

Como conselheira em aleitamento materno, sou bastantes vezes confrontada com casos de mães lactantes a quem foi diagnosticada depressão pós-parto.
Estas mães contactam-me, regra geral, porque os médicos lhes dizem que têm obrigatoriamente que desmamar os seus bebés para poderem tratar-se e tomar medicação. Estas mães são literalmente encostadas entre a espada e a parede, sem lhes serem apresentadas alternativas, e muitas vezes com bebés ainda bem pequenos...
Quando estas mulheres estão empenhadas na amamentação e se vê que isso é algo que lhes dá força e auto-estima, um desmame forçado e repentino é um pensamento no mínimo angustiante (ainda mais tendo em conta que a mulher se encontra já deprimida).

É possível tratar uma depressão pós-parto sem deixar de amamentar!

Em primeiro lugar, a amamentação e as hormonas envolvidas no processo de aleitamento materno podem ajudar a combater a depressão:

- a mãe que está empenhada na amamentação e para a qual esta é gratificante sente auto-estima por poder proporcionar alimento ao seu filho;

- a amamentação promove o vínculo mãe-bebé, o que transmite segurança e bem-estar à mãe e que a leva a encarar de forma gratificante os cuidados prestados ao bebé (que são exigentes);

- a hormona oxitocina, presente na amamentação, promove sentimentos de bem-estar e é mesmo considerada um anti-depressivo natural;

- a hormona prolactina, presente na amamentação, causa sonolência na mãe o que poderá ajudar a mãe a conciliar os seus ritmos de sono com os do bebé e consequentemente descansar mais e com melhor qualidade;

- amamentar ajuda a manter baixos os níveis de hormonas de stress, como o cortisol (este benefício estende-se aos bebés, que também sentem o stress das mães a nível hormonal);

Em segundo lugar, os tratamentos para a depressão podem ser compatíveis com a amamentação:

- existem anti-depressivos compatíveis com o aleitamento materno que não apresentam risco para o bebé;

- há outras formas de combater a depressão, como a psicoterapia, e tratamentos naturais, como a homeopatia, por exemplo;

- existem estudos que sugerem que a depressão pode agravar com o desmame (quando este não é desejado pela mãe) e que há depressões que despoletam após o desmame (o que sugere uma relação causa-efeito); outros estudos sugerem que mães que não amamentam têm maiores probabilidades de sofrer de depressão pós-parto;

Se tem depressão pós-parto e está a amamentar, não deixe de se tratar! A depressão está a prejudicá-la e pode prejudicar também o seu bebé!

Os médicos que aconselham o desmame fazem-no, acredito, com boa intenção. Apenas não têm conhecimentos suficientes sobre aleitamento materno.
Se o seu médico a aconselhou a desmamar o seu bebé devido a uma depressão pós-parto pode tentar falar com ele e apresentar-lhe algumas fontes:

  • Um documento sobre depressão pós-parto e amamentação: ver aqui
  • Recursos onde pesquisar a interferência dos fármacos na amamentação: ver aqui e aqui
Também pode considerar a hipótese de contactar outro profissional de saúde, um psicoterapeuta e/ou técnicos especializados em tratamentos alternativos naturais.

Testemunho

A actriz norte americana Brooke Shields sofreu uma severa depressão pós-parto após o nascimento da sua primeira filha. Depois de recuperada resolveu partilhar a sua história com outras mães escrevendo o livro Down came the rain.
Nele a actriz conta a dificuldade que teve em engravidar e a gravidez difícil em que foi confrontada com a morte do pai, em cujo funeral foi impedida de estar presente por não poder viajar.
Brooke preparava-se para um parto natural, fazendo inclusivé aulas de yoga, mas após 24 horas de trabalho de parto é submetida a uma cesariana de emergência, com algumas complicações pelo meio.
Após as primeiras semanas em casa com a bebé, a actriz começou a perceber que não se sentia bem...

Familiares, amigos e o marido também perceberam que Brooke não estava nada bem. Por isso, começaram a querer afastá-la do bebé, aconselhando-a a parar de amamentar e dedicar um tempo para si. Mas, curiosamente, tudo o que ela não queria era deixar a amamentação de lado, pois sentia que essa era a sua única hipótese de manter contacto com a filha e conseguir ser feliz com a nova vida.

Resolveu rapidamente procurar ajuda e em poucas semanas voltou a sentir a vida sorrir-lhe!

Aguns dos sintomas de depressão pós-parto podem ser:

- sentimentos de tristeza e/ou irritabilidade constante
- incapacidade de sentir prazer/felicidade com coisas que antes lhe davam prazer
- dificuldade em dormir (mesmo quando o bebé está a dormir)
- cansaço extremo/sentimento de exaustão
- sentimentos de desespero e angústia recorrentes
- Sentimentos de culpa, incapacidade, pessimismo, sensação de inutilidade
- choro constante
- alterações no apetite
- vontade de permanecer só
- Sintomas físicos como dores de cabeça, problemas digestivos, dores crónicas que não desaparecem
- falta de interesse pelo bebé

Nota: alguns sentimentos de insegurança, cansaço, choro e angústia são comuns no pós-parto imediato. Trata-te do chamado Baby Blues que surge alguns dias após o parto e passa naturalmente. Se estes sentimentos se prolongarem de forma constante após as primeiras semanas de vida do bebé deve procurar ajuda.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Gestação: tempo de mudanças bio-psico-sociais

Este texo foi escrito tendo por base a realidade brasileira, no entanto, todos os factos referidos são válidos para a nossa realidade também.
Fala sobre os aspectos psico-sociais da gravidez e da maternidade e vale a pena ler pois são temas pouco falados mas importantíssimos para as mulheres!

Descobrir uma gravidez é um impacto na vida de um casal, é um evento que muda a rotina e prevê inúmeras transformações imensuráveis. A experiência da maternidade e paternidade possibilita o auto-conhecimento, o desejo de ter um filho muitas vezes está presente antes mesmo que o casal perceba, sendo rodeado de motivos baseados em antecedentes familiares, marcados por contextos socioculturais e por influências psico-biológicas.

A partir do momento que a mulher engravida ela passa a ser um objeto de interesse e preocupação da sociedade, mas não por ela em si e sim por causa do bebê que ela carrega. “O importante é que o neném nasça com saúde, seja por parto normal ou cesáreo”, argumento que reflete a preocupação da sociedade com o bem-estar do bebê. A falta de preparo psicológico das mulheres para enfrentar a gravidez e o parto explica o alto índice de cesáreas eletivas em nosso país. Infelizmente no Brasil, o parto ainda é visto como um evento médico com possibilidade de complicação, nesse contexto a mulher é tratada como paciente que necessita de inúmeras intervenções (muitas vezes desnecessárias) e seu estado emocional é desconsiderado. O sentido humano e feminino do parto está se perdendo, sendo substituído por um processo mecânico, impessoal e frio.

Garantir o bem estar geral da mulher durante a gestação é essencial, pensando não somente no aspecto físico, mas também no aspecto emocional, que age também sobre o crescimento e desenvolvimento fetal com conseqüências em longo prazo. Nem sempre o estado emocional da gestante é levado em consideração pelos profissionais de saúde, que acreditam que esta é uma responsabilidade da família e da comunidade, e acabam se preocupando só em cumprir as rotinas e protocolos.

A experiência da maternidade proporciona à mulher a possibilidade de ampliar sua consciência através da introversão, possibilitando a integração e à harmonização de seus conteúdos conscientes e inconscientes (da psique feminina). O processo de individuação feminino só ocorrerá se a mulher considerar o caráter bivalente do arquétipo materno, quebrando o tabu da sociedade que encara a maternidade somente pelo lado positivo. A passagem de “filha” para “mãe”, requer a morte da filha para o nascimento da mãe, e vem rodeada de sentimentos intensos que irão transformar e amadurecer os pensamentos e as condutas da mulher, que pode responder de forma positiva ou negativa a essas modificações. Aceitar e mergulhar na gravidez requer um ato de fé na vida, fé de que apesar das dificuldades vale à pena viver a maternidade. Mas para que esse sentimento desperte, é necessário um solo fértil. A gestante precisa de acolhimento e compreensão.

Em nossa cultura racional e moderna, voltada ao modelo cartesiano, concede-se muito poder a razão. A intuição é vista como uma fonte de conhecimento não confiável. As emoções, sentimentos e intuições são abafados e o corpo se transforma em matéria inerte, um mero objeto de manipulação.
Assim sendo, as mulheres são firme e silenciosamente convidadas a não perguntar, não questionar, não duvidar. Ela deve continuar vivendo o período da gestação normalmente, como se não houvesse transformação alguma. Nos consultórios ela é tratada como todas as outras, afinal o protocolo deve ser seguido. Michel Odent denomina “efeito nocebo” das consultas pré-natais, os casos em que o profissional de saúde faz mais mal do que bem as gestantes, atuando sobre a imaginação, as crenças e, portanto, sobre o estado emocional. Falar de sentimentos, é besteira!!! Essa coisa de intuição não existe!!! Então a mulher se retrai e se fecha, passando a agir racionalmente, gerando conflitos entre o consciente e o inconsciente, e conseqüente instabilidade física e emocional.

A fisiologia do parto não se modifica, mas os aspectos bio-psico-social envolvidos no processo são tratados de forma diferente por cada sociedade e pelos indivíduos nela inseridos. A família, principalmente, estabelece, impõe e dita as regras e leis que são determindas pela sociedade e governam nossa conduta. Aprendemos que é preciso ser forte, racional e ter sob controle todas as situações. Assim deixamos de lado nossos desejos e nossa auto-estima, afinal a sociedade exige que a mulher assuma papeis, funções, aptidões e estereótipos que muitas vezes não condizem com seu interior.

A gestação é considerada um período de transição, um evento transformador da vida. A cultura ocidental tecnocrática considera a gestação e o parto como um processo meramente fisiológico, e estabelece as rotinas obstétricas como imprescindíveis para que o processo ocorra sem complicações, deixando clara a visão de que a tecnologia é superior à natureza. O sentido da gestação como um ritual de iniciação para a vida, se perdeu. Somos levadas a acreditar que nossa gestação é de responsabilidade do médico obstetra, que a nós cabe escutar o que ele tem a dizer e aceitar as decisões sem questionar. Dar à luz hoje se tornou uma façanha para a mulher que quer estar consciente e ser ativa durante o nascimento de seu filho.

Durante a gestação, período em que a mulher está emocionalmente vulnerável, é incorporada, inconscientemente, a idéia de que um parto medicalizado traz mais benefícios à mãe e ao seu bebê, pois ambos serão poupados do sofrimento e da dor. É criada a falsa ilusão de que tudo pode ser controlado pela desenvolvida tecnologia médica.

O estimulo à prática de terapias alternativas durante a gestação e parto ainda é pouco difundido. Poucas são as gestantes que durante o pré-natal são orientadas a praticar exercícios para fortalecer o períneo e para diminuir a dor durante o TP e parto, por exemplo. Poucas conhecem práticas alternativas para alivio dos incômodos durante a gravidez, ou que realizam atividades que garantam relaxamento e equilíbrio físico e emocional.

A transmissão das crenças e rituais para o parto na sociedade atual, se baseia num modelo tecnocrático. Quando é chegada a hora do nascimento do bebê, a mulher é levada ao hospital, onde é obrigada a colocar aquele avental verde, imediatamente é iniciado o monitoramento por aparelhos que verificam a vitalidade fetal, é indicado um soro com oxitocina para acelerar o TP, é orientada a ficar deitada e sem comer durante todo período, é colocada sobre a desconfortável mesa de parto, é realizada a anestesia para aliviar a dor, sem contar que deve estar preparada para a episiotomia. São deixadas lá, sozinhas, entregues à pessoas estranhas, que se dizem muito competentes para acompanhar todo o processo, garantindo a segurança da mãe e do bebê!!! Logo que o bebê nasce é afastado da mãe para que se cumpram as rotinas estabelecidas... É assim que somos preparadas para o parto!!! E achamos tudo isso normal!!! O anormal é querer um parto sem intervenções ou que estas sejam mínimas, é querer o apoio e proximidade de pessoas queridas, é querer acolher seu bebê, é querer ser a protagonista disso tudo e sentir-se vitoriosa e capaz de viver e entender intensamente essa nova etapa da vida...

O movimento pela humanização do parto e nascimento visa contribuir para uma mudança efetiva no modo de cuidar das gestantes, oferecendo suporte físico e psicológico com informações e orientações de qualidade para que ela possa viver seu parto com segurança, satisfação e plenitude.
Como profissionais humanizadas que queremos ser, devemos sempre carregar as características de um bom alquimista: “...ter o espírito extremamente sutil e dispor de conhecimentos suficientes(...) Assim, pois, não pode ser grosseiro de espírito ou rígido, nem pode ser voraz ou cobiçoso, indeciso e inconstante. Não deve ser apressado ou presunçoso. Pelo contrário, deve ter firme propósito, longanimidade, perseverança, paciência, docilidade e moderação.” (JUNG: 1991, 283).

As mulheres que gerarem e parirem seus bebês com consciência, certamente estarão trazendo ao mundo seres humanos preocupados em lutar para restabelecer um mundo com visão holística, baseados em valores humanísticos e saudáveis como forma de pensar e viver.

Texto de Viviane Fontes Moradei Coelho*

Bibliografia

CORDEIRO, Silvia N. Importância dos aspectos psicológicos no processo reprodutivo. Disponível em: http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?option=com_content&task=view&id=944&Itemid=208
SARMENTO, Gisele. O papel da maternidade no processo de individuação feminino. Material do curso Humanização, ano 2009.
TANESE NOGUEIRA, Adriana. Intuição – O inexplicável do dia-a-dia. Disponível em: http://psicologiadialetica.blogspot.com/2009/08/intuicao-o-inexplicavel-no-dia-dia.html
TANESE NOGUEIRA, Adriana. Emoções. Texto não publicado. Material do curso de Humanização Online da ONG Amigas do Parto, ano 2009.
TANESE NOGUEIRA, Adriana. Mulheres e gravidez hoje. Capítulo do livro "Empoderando as Mulheres. Psicologia e Humanização" de Adriana Tanese Nogueira, São Paulo, Editora Biblioteca24x7, 2009 (em fase de publicação).
TANESE NOGUEIRA, Adriana. Parto Alquímico. Entre individuação feminina e transformação social. Disponível em: http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?option=com_content&task=view&id=206&Itemid=213


*Viviane Fontes Moradei Coelho é enfermeira obstetra, tem 26 anos e mora em Vitória (ES). Este texto foi elaborado como Monografia final do Módulo Gestação do curso Humanização Online 2009.
Contato: vimoradei@yahoo.com.br

Fonte: ONG Amigas do Parto

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