domingo, 24 de agosto de 2008

Como uma leoa

Gostei deste artigo, antes de mais, porque fala de um tema tabu: o sentimento de possessividade que muitas mães sentem pelo seu bebé.
É tabu porque na nossa sociedade "parece mal" não deixar os familiares e amigos pegarem e mexerem no bebé mas no fundo este sentimento é normal e faz parte do instinto de protecção da cria.
Como é um assunto pouco falado, muitas vezes os pais reagem mal por não entenderem o que se passa com a sua companheira e podem gerar-se alguns conflitos...

Nos primeiros tempos, mamã e bebé vivem uma relação tão estreita que causa irritação que outras pessoas tentem aproximar-se do recém-chegado. Ela cuida-o e protege-o, como uma leoa as suas crias.

Durante a gravidez a mamã leva o seu filho dentro da barriga para onde quer que vá: ao cabeleireiro, ao trabalho, a fazer compras... E o bebé é da sua exclusiva propriedade. No entanto, nas últimas semanas da gravidez e perante a aproximação da data do parto, é frequente que comece a fantasiar e a aperceber-se das "consequências" que implica dar à luz o ser que hoje a acompanha para todos os lados. Entre outras, a mais importante é a exclusividade que tinha e ainda tem, no que diz respeito ao seu filho por nascer, tarde ou cedo terá o seu fim: depois do parto, a mamã deverá partilhar o seu bebé com outras pessoas.

E também com o papá. À primeira vista, isto trata-se de um facto natural que teoricamente não deveria incomodá-la. No entanto, se aprofundarmos um pouco, se a incomoda! Ela desejaria ser a única a encarregar-se do bebé, e que nenhuma outra pessoa se aproximasse dele. E é natural que trate de provocar situações de todo o tipo para que possa ser exclusivamente ela não só a amamentá-lo, mas também a dar-lhe banho, mudá-lo, levá-lo a passear, levá-lo ao pediatra, etc.

Autorização para tocar

Quando o papá se aproxima do bebé, a mamã não tem outro remédio que não seja "dar-lhe autorização" para tocá-lo. Mas claro, só um bocadinho. Curiosamente, não é raro que exactamente nesse instante ela lhe diga: "Viste que lindo? Mas, sabes? O melhor é deixá-lo no berço porque tem sono", ou "Dá-mo que ia justamente mudar-lhe a fralda", ou "Ia dar-lhe de mamar neste preciso momento" ou... Quando os que se aproximam do bebé são os irmãozitos, as restrições são mais fáceis de justificar:

"Cuidado, não lhe toques que tens as mãozinhas sujas", ou "faz-lhe uma festinha, mas aqui na zona da fralda". A fantasia mais comum da mãe é que possam magoar o recém-nascido "sem querer... querendo". Uma suspeita nem sempre errada, já que para os irmãos mais velhos o novo irmão "É muito bonito, mas porque não o damos aos vizinhos ou a esse teu amiguinho da escola que não tem nenhum mano?".

Mas limpinho

Há mulheres que, uma vez nascido o bebé, desenvolvem uma preocupação quase doentia pela higiene. Além da inquietação que possam ter pela limpeza, esta é uma excelente e elegante desculpa para prolongar o tempo em que o recém-nascido permanece "intocável".

Uma relação muito particular

Quando uma mamã é primípara, este fenómeno tão possessivo pode ser muito exacerbado, ainda que às vezes, pelo desconhecimento próprio da primeira vez, não se mostre tão ciumenta e se comporte de maneira mais permissiva. Logicamente, até que o sentimento de propriedade se desenvolva completamente: aí sim, não haverá quem a trave! Nas que já tenham tido filhos, a atitude perante o novo bebé depende das experiências anteriores; especialmente, da maneira como viveram os puerpérios anteriores.

No entanto, o que define a relação inicial entre a mamã e o bebé é a história pessoal de cada mulher, dado que este novo vínculo a remete, inexoravelmente, ao vínculo primário com a sua própria mãe quando era bebé. São as normais vicissitudes daquela relação as que se repercutirão na sua experiência pessoal da própria maternidade.

O que se passa com as avós

No caso da avó materna, a mamã será mais permissiva, sempre e quando a avó adopte o seu lugar, e não se sinta, actue ou tome atribuições como se fosse a mãe do recém-nascido. Não esqueçamos que já desde a gravidez a avó materna (a mamã da mamã) ocupa um lugar central, junto com o papá e o obstetra. No entanto, não sucede o mesmo com a avó paterna: geralmente irrita muito as mamãs que a sogra tente aproximar-se do bebé.

E o papá, além de suportar a sua própria exclusão, é o receptor das frequentes queixas por parte da sua esposa, pelas intromissões da sua mãe ("Diz à tua mãe que não se meta tanto", "Diz-lhe que não venha tantas vezes seguidas cá a casa", etc.). Como para a radiante mamã o papá em alguns casos, pode ser o terceiro, como qualquer outro, ele pode entender e colocar-se mais facilmente no lugar da sua própria mãe, a sogra, e compreender que seja lógico que esta queira ter o seu netinho nos braços.

Neste contexto, produzem-se importantes rivalidades que podem manifestar-se em forma de discussão: "Porque é que a tua mãe te pode acompanhar ao pediatra, e a minha não?", "Porque é que a tua mãe o pode ter ao colo a tarde inteira, e a minha não?". Obviamente, embora não seja enunciada, a resposta é "Porque é a minha mãe".

Meu e só meu

É certo que na grande maioria dos casos a mamã não pode sentir pelo recém-nascido aquele amor que imaginou que a invadiria desde o momento em que o tivesse nos braços. No entanto, embora não sinta vontade de levantá-lo, mimá-lo ou tê-lo perto de si, tão pouco permitirá que outros o façam.

De todas as maneiras, à medida que passam as horas ou os dias, o vínculo entre a mamã e o seu bebé vai-se fortalecendo, e de "não sentir nada" passará a ter uma verdadeira "paixão". Às vezes o click produz-se muito mais rápido, como por exemplo, quando o menino lhe oferece um sorriso e faz com que ela se enamore no momento. A partir desse momento já não haverá nada que os consiga separar...

in http://familia.sapo.pt

4 comentários:

silvia disse...

Como foi bom ter lido este artigo!Foi o que se passou exactamente comigo! E eu a pensar que estava maluca, e a culpar-me por ter estes sentimentos, até andei numa psicóloga!Afinal é normal!
Se falassem mais destes assuntos importantes na TV, o tempo que só passam reality shows, era bem mais instrutivo e uma pessoa não sofria á toa.
silvia

Sofia Carvalho disse...

Concordo, Sílvia!
Mas é como disse, estes temas infelizmente são tabu e muito pouco falados...
Mesmo assim, acredito que a pouco e pouco vamos conseguindo mudar as coisas.

Beijinhos

Rosa Branca disse...

Olá!
Quando li este artigo, adorei saber que o que senti é normal e que, afinal, não é uma questão de se ser mais ou menos possessiva, admitindo que nem todas as pessoas o sentem tão intensamente.
Quando tive o meu bebé, na maternidade, à excepção da noite em que ele nasceu, (que eu não me podia mexer muito nem levantar), o meu bebé esteve sempre comigo na minha cama, dormindo comigo. Não conseguia deixá-lo no berço, longe de mim... aí uns 30 cm de distância. A enfermeira punha no berço e eu pegava e punha ao pé de mim. Não era um comportamento reflectido, fazia assim e pronto! Mas agora, pensando bem, acho que só fiz bem ao meu filho. Ainda assim, ele perdeu peso nos primeiros dias e acabo por pensar que se não o tivesse posto ao pé de mim ele teria perdido mais, (não consegui amamentá-lo logo, porque o leite 'atrasou-se' para o parto, só chegou no segundo dia após o nascimento).
De resto, em relação à família, é mesmo verdade! A nossa é sempre a nossa e além disso temos de reconhecer que isto de se ter um bebé é algo muito feminino, é muito da mulher, é muito de se ser mulher. Como aprendemos a ser mulher com a nossa mãe e é nela que confiamos, acabamos por nos dar muito mais a ela do que à sogra... Sobretudo quando a sogra começa a comportar-se de um modo que não inspira confiança nenhuma e a dizer disparates que nos ofendem, como por exemplo: 'deixa chorar, chorar faz bem, faz esticar as peles', 'é difícil quando eles são assim...' sem a criança ser nada mais nada menos do que um bebé, um recém-nascido (e mesmo depois); isto para não falar nas semelhanças, no 'tem de sair ao pai' nem que seja à força, já para não falar na teimosia da tia que insiste que o sobrinho é parecido é com ela, desde o abanar as pernas a outra coisa qualquer sem nexo.
Bem sei que há famílias e famílias, umas mais complicadas do que outras, mas de facto incomoda sempre quando vemos que as pessoas não respeitam as necessidades do bebé, não o deixam dormir quando ele precisa, o acordam quando está a dormir, o deixam chorar porque o querem no seu colo e o bebé quer a mãe... enfim, um sem número de ignorâncias, estupidezes e teimosias que, volta e meia, acaba em 'a tua família é complicada, estou farta de os aturar!', complicando a vida do casal.
O que mais me surpreende é que, se são nossos sogros ou pais, foram e são pais também e já passaram por situações semelhantes, mais ou menos informadas, mais ou menos sensíveis, já passaram pelo mesmo e quase de certeza que também não gostavam de ouvir os filhos chorarem ou de ouvir dizerem que os filhos têm uma característica desfavorável por saírem a si...
Neste aspecto eu sei do que falo, que estou bem servida de família do marido.
E quando se lembram de pôr os dedos dentro da boca do bebé a ver se tem dentinho!? A mãe vai lavar as mãos e só não as desinfecta com nada mais potente porque não pode, mas a extremosa vovó paterna teima em pôr os gafanhos vindos sabe-se lá de onde na boca do menino, sobretudo se a mãe vira costas para ir ao quarto de banho ou assim.
Causa revolta, causa falta de confiança e desconforto, causa vontade de não voltar àquela casa, de não voltar a encontrar aquelas pessoas...! Para além de apetecer dizer-lhes umas palavras extremamente carinhosas em agradecimento da suprema ignorância, estupidez e desrespeito.
Desculpem-me o desabafo.
Concluindo, adorei este artigo e é pena que não haja mais gente a ler artigos como este.
Obrigada por ter este blogue com tantas coisas úteis.
Cumprimentos,
Rosa Branca.

Sofia disse...

Por vezes não é fácil gerir tudo isto, Rosa... Espero que consigas encontrar o equilíbrio... ele está em nós, é só procurar. Ajuda valorizar apenas aquilo que é mesmo importante, ignorar o que não é assim tanto e assim seleccionar as alturas em que é preciso marcar uma posição. No resto do tempo é relaxar e desfrutar do bebé. E lembrar que a Mãe és TU! :) Bjs

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