sábado, 28 de junho de 2008

Férias

Informamos os nossos leitores que vamos estar fora, em férias, até ao dia 13 de Julho.

terça-feira, 17 de junho de 2008

O Filme do Momento

Chama-se The Business of Being Born e é um filme-documentário sobre o parto na realidade norte-americana (onde também pudemos ir buscar semelhanças com a nossa realidade).
Muitas vezes tomam-se decisões médicas sem ser pelos melhores motivos possíveis, ao contrário do que estamos habituados a pensar...
O filme conta ainda com a participação de grandes nomes de apoiantes do parto humanizado, tais como Robbie Davis-Floyd, Ina May, Michel Odent, Marsden Wagner, entre outros...

Podem visitar o site oficial do filme aqui, e assistir ao filme na integra aqui.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O papel do pai na Amamentação

Actualmente falamos muito em Aleitamento Materno mas sempre na perspectiva da Mãe. No entanto, penso que é importantíssimo incluír o pai neste processo.

Em Portugal sabemos que apenas 40% das mães atinge 6 meses de aleitamento materno (ainda que cada vez mais as recomendações da Organização Mundial de Saúde sejam divulgadas: 6 meses de amamentação em exclusivo e complementar até aos 2 anos ou mais) .
As causas que levam a esmagadora maioria das mães a desistir da amamentação prendem-se com a insegurança, a falta de informação e a crença de que o seu leite não é suficiente em quantidade ou qualidade para alimentar o bebé.

Posto isto, o pai desempenha aqui um papel fundamental na transmissão de segurança à sua companheira. Se o próprio pai do bebé não for o primeiro a incentivar a amamentação e a conhecer os seus benefícios, a mãe sentir-se-à muito menos confiante.

Deixo-vos, então, um belíssimo texto do pediatra Marcus Renato[1] sobre a participação do pai neste período tão importante na vida do bebé e da sua mãe:


Dez Passos para a participação efectiva e afectiva do PAI no apoio ao Aleitamento Materno


1. Encoraje e incentive a sua mulher a amamentar: Por vezes ela pode estar insegura da sua capacidade de aleitar. O seu apoio será fundamental nessas alturas.

2. Divida e partilhe as mamas da sua mulher com o bebé: Mesmo que seja difícil aceitar, lembre-se que a amamentação é um período passageiro. Dê prioridade ao seu filho(a).

3. Sempre que possível, participe do momento da amamentação:
A sua presença, carícia e toque durante o acto de amamentar são factores importantes para a manutenção do vínculo afectivo do trinómio mãe+filho(a)+pai.

4. Seja paciente e compreensivo:
No período de amamentação é pouco provável que a sua mulher possa manter a casa, as refeições e o seu próprio aspecto de formas impecáveis. As necessidades do recém nascido são prioridades nesta fase.

5. Sinta-se útil durante o período de amamentação: Coopere nas tarefas do bebé na medida do possível: trocar fraldas, ajudar no banho, vestir, embalar, etc. Quando a mãe estiver a amamentar, ofereça-lhe um copo de sumo de frutas ou de água, ela vai adorar!

6. Mantenha-se sereno:
Embora o aleitamento traga muitas alegrias, também traz muitas dificuldades e cansaço. Por vezes a sua mulher pode ficar impaciente. Mostre carinho e compreensão neste momento. Evite discussões desnecessárias para não prejudicar psicologicamente a descida do leite.

7. Procure ocupar-se mais dos outros filhos (se os tiverem):
Para que não se sintam rejeitados com a chegada do nov(a)o irmã(o). Isto permitirá à sua mulher dedicar-se mais ao recém-nascido.

8. Mantenha o hábito de acariciar as mamas da sua mulher:
Se costumava fazê-lo. Estudos demonstram que quanto mais uma mulher é sensível às carícias do companheiro, mais reagirá à estimulação rítmica de seu bebé.

9. Fique atento às variações do apetite sexual da sua mulher:
Algumas mulheres reagem com um aumento da libido, outras com uma diminuição, são alterações normais. Esta é a ocasião para o casal vivências novas experiências e hábitos sexuais, adaptando-se ao momento.

10. Não traga para casa latas de leite, biberões ou chuchas:
O sucesso deste período, em grande parte depende, da sua atitude. O Aleitamento Materno exclusivo até aos seis meses e o seu carinho são tudo o que o bebé necessita para crescer inteligente e saudável.

O Pai na Amamentação, por Dr. Marcus Renato

[1] Marcus Renato de Carvalho é formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, especialista em medicina preventiva e social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com mestrado em saúde pública pela Escola Nacional de Saúde Pública/Fio Cruz, é pós graduado em manejo clínico da lactação pelo Welistart International San Diego e especialista em amamentação pelo International Board Certified Lactation Consultant, além de pediatra docente do Departamento de Pediatria da UFRJ e editor do site (www.aleitamento.com).

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A Hormona do Amor

A ocitocina é a hormona mais importante em todo o processo de nascimento - das primeiras contracções ao aleitamento.

Mas se os efeitos mecânicos da ocitocina são um objecto de estudo essencial para qualquer profissional de saúde da área da obstetrícia, só em finais dos anos setenta é que se descobriram as relações desta hormona com o cérebro e o sistema nervoso e se começaram a estudar as suas implicações comportamentais.

Descobriu-se também que a ocitocina produzida pelo corpo humano funciona de um modo muito mais complexo do que a produzida artificialmente - ela é sensível ao ambiente que a rodeia. Um bom ambiente para o parto facilita todo o processo de nascimento.

Um mau ambiente, pelo contrário, dificulta-o. Então porque é que as nossas maternidades não põem em prática tudo aquilo que hoje se sabe sobre a hormona da ocitocina e as suas sensibilidades ao ambiente? Porque é que não investem mais na criação de um bom ambiente para o parto?

Criar um bom ambiente

O bom funcionamento da ocitocina natural e de outras hormonas produzidas pelo corpo humano é fundamental para que o parto possa ser «fácil». O problema é que, como também se descobriu há poucas décadas, a ocitocina é muito sensível ao ambiente que a rodeia.

Assim, uma das causas dos partos díficeis - contracções pouco eficientes, a dilatação que não progride, expulsão sem intensidade - bem como das dificuldades no início da amamentação, está na interacção negativa do ambiente em que decorre o parto. E isto remete-nos para uma profunda contradição: as condições ideais para uma acção favorável da ocitocina são, muitas vezes, diametralmente opostas às condições proporcionadas pelas maternidades: imposição de regras e imobilidade, falta de privacidade, solidão, ruído, luz, fome, sede e insegurança são razões para que o neocortex, a parte do cérebro que pensa, o lado racional, se active, dificultando a fisiologia do parto.

Inibido, em alerta, com mais adrenalina do que ociticina, o corpo da mulher tem dificuldade em fazer uso das suas capacidades para dar à luz. Claro que os hospitais têm soluções para todas as dificuldades. Mas não seria mais mais lógico que tentassem criar as condições mais favoráveis ao processo de nascimento e assim evitar muitos dos seus problemas?

Existem outras características fisiológicas humanas que nos podem ajudar a compreender melhor o parto. O sono ou a sexualidade também contêm uma componente fisiológica que está dependente de factores externos. Para que um ser humano consiga adormecer, o cerébro tem de descansar para alcançar o sono; também ajuda se estiver num ambiente adequado feito de penumbra, silêncio, calma, segurança, temperatura agradável.

É díficil a uma pessoa adormecer se tiver um desconhecido a olhar para ele ou a fazer-lhe perguntas, se não se sentir descontraído, se tiver fome, se estiver consciente do seu ressonar ou do inestetismo da sua mandíbula aberta. A falta de privacidade, de segurança e de intimidade constituem factores inibitórios do sono ou da sexualidade. Ou do parto.

O processo de nascimento - desde as primeiras contracções ao início do aleitamento - é muito sensível aos estímulos exteriores que favorecem, ou dificultam, os processos fisiológicos.

Uma parturiente num espaço hospitalar sem o apoio afectivo de alguém que lhe seja próximo, a ouvir outras parturientes e visitas, ligada a máquinas e a tubos, sem poder saciar a fome e a sede, constrangida a estar reclinada numa maca, a ter de se «portar bem», com medo de se descontrolar ou de gritar, tem necessariamente mais dificuldades em participar de modo activo no nascimento como terá mais dificuldades em estabelecer uma primeira ligação feliz com o seu filho.

É, então, que surgem as ajudas indispensáveis: a ocitocina sintética, a anestesia epidural, os instrumentos para extrair o bebé, a cesariana e o leite artificial.

A indução: Vamos apressar o processo?

A utilização da ocitocina sintética é, talvez, uma das intervenções mais banais no processo de parto medicalizado. Para dar início ao processo de nascimento ou para o acelerar quando já iniciado. O problema é que a ocitocina farmacológica pode reproduzir alguns dos efeitos mecânicos da ocitocina humana, mas não possui os efeitos positivos que esta última tem em todas as fases do parto, assim como no encontro com o recém-nascido (o momento em que, se lhe for permitido, o corpo produz a maior quantidade desta hormona).

A banalização da ocitocina sintética favorece, para além disso, uma «bola-de-neve» de outras intervenções com consequências várias para a mãe e para a criança. A Organização Mundial de Saúde condena a indução do parto sem ser por razões médicas.

No entanto, muitos pais e médicos «marcam» os nascimentos para um determinado dia e iniciam o trabalho de parto recorrendo à ocitocina farmacológica. Fazem-no porque toda a cultura do nascimento favorece que assim seja, não porque haja necessariamente uma razão médica para o fazer. E fazem-no por várias razões. Em primeiro lugar, porque «marcar» o nascimento pode ajudar a colmatar os medos e as expectativas sentidas por tantos pais.

Persiste a ideia, falsa, de que indução é igual a segurança, um processo controlado do príncipio ao fim, sem riscos, sem surpresas, sem perigo. Porquê viver a ansiedade natural dos últimos tempos de gravidez e a imprevisibilidade do dia a dia se se pode resolver tudo isto com a segurança de uma hora marcada?

Para muitas mulheres que recorrem aos hospitais privados também significa poderem assegurar o «seu» médico durante o «seu» parto: por um lado, ficarão sujeitas a todos os efeitos secundários de um parto marcado, que muitas vezes desconhecem; mas, por outro, têm a segurança de que estará lá alguém de confiança para resolver os problemas que podem surgir quando se marca um parto sem um motivo médico. Paradoxal?

Em segundo lugar, existem razões práticas: por um lado, no fim da gravidez as mulheres estão cansadas, o peso dos pés a aumentar, outros filhos para tratar e tudo o resto a fazer. As mulheres portuguesas, por exemplo, trabalham muito, fora e dentro de casa e muitas vezes têm maridos que não partilham as responsabilidades domésticas.

Por que não induzir o parto para umas semanas antes? Por outro lado, muitos médicos, sobretudo a trabalhar em hospitais privados, fazem da indução sem razões médicas uma aliada para melhor gerir a sua vida profissional, os seus congressos, as suas aulas, a sua vida familiar. É muito mais prático «marcar» um parto do que ter de estar contactável dia e noite à espera das primeiras contracções de várias «pacientes».

Os médicos obstetras têm vidas muito exigentes profissionalmente, também têm filhos e também estão cansados como todos nós. Em muitos casos, a indução marca-se para as 38 semanas, antes do tempo previsto, para que não haja o «perigo» de o trabalho de parto se iniciar «sozinho», longe da presença médica, longe do hospital, longe de imprevistos.

Mas importa avaliar os aspectos positivos e negativos em mulheres e nascituros saudáveis. De facto, com a indução artificial, o parto torna-se mais prevísivel: não há o risco de ir para a maternidade às quatro da manhã e para muitas mulheres isso é sinónimo de tranquilidade mas, por outro lado, forçar os corpos da mãe e do bébé a iniciar um processo complexo, antes de eles estarem preparados, aumenta a possibilidade de intervenção - mais ocitocina farmacológica, cesariana, forceps, ventosa, episiotomia -, tal como intensifica as contracções, logo a necessidade de anestesia.

Este conjunto de práticas que interagem e dependem umas das outras, muitas vezes num círculo vicioso, pode também aumentar a propensão para problemas respiratórios nos recém-nascidos e a consequente necessidade de estes permanecerem numa incubadora.

Levar a casa para o hospital

A disciplina da fisiologia, universal e transcultural, e as novas investigações médicas sobre a ocitocina e sobre o conjunto de hormonas implicado no parto têm contribuído para uma melhor compreensão do processo de nascimento. E são muitas as maternidades do mundo que já integraram na sua prática estes conhecimentos recentes.

Dão protagonismo às mulheres e criam condições hospitalares para que elas possam beneficiar dos recursos próprios do corpo humano, por um lado; e limitando os usos da ocitocina farmacológica e outras intervenções àqueles casos, excepcionais, em que elas são necessárias. Ambas as atitudes são inseparáveis: a intervenção só poderá ser reduzida se se criarem condições para que os mecanismos fisiológicos possam funcionar.

O serviço de obstetrícia de um hospital tem características únicas, diferentes de todas as outras secções de um hospital. A parturiente saudável não é uma doente. É uma mulher que vai ter um filho. A única razão que leva uma mulher saudável a ser internada num hospital requer necessariamente uma abordagem diferente da de outras áreas da medicina, que têm de estar mais centradas na patologia.

A banalização da indução, em que a parturiente recebe ocitocina (às vezes sem ser informada) no mesmo «soro» que lhe limita os movimentos, tal como a imposição de dar à luz em posição supina com as pernas pousadas numas perneiras é uma das regras que exemplificam a projecção do comportamento do «doente» no comportamento das grávidas.

Hoje, já são muitas as maternidades em todo o mundo que pensaram nestas questões e mudaram o seu espaço e o seu ambiente. Mas não é possível mudar mobílias sem antes mudar cabeças. E isso é, claro, muito mais díficil.

Um modelo de nascimento utilizado em muitos países e com resultados muito positivos é aquele que procura criar um espaço hospitalar o mais parecido possível com uma casa.

Tendo em conta que o ambiente privado, íntimo e afectivo de casa facilita o processo de nascimento, este modelo procura reproduzir as mesmas condições num ambiente hospitalar. Assim, a parturiente pode viver o seu parto com muitas das vantagens de um parto em casa e com a possibilidade de todos os instrumentos e saber dos profissionais de saúde que acompanham todo o processo e só interferem em caso de necessidade.

Os resultados deste modelo de nascimento são muito positivos, na satisfacção das famílias que o vivem, e na diminuição da intervenção, com o que isso significa no bem estar das pessoas envolvidas e na poupança de custos hospitalares.

Quando se criam condições para que o corpo humano possa produzir ocitocina, diminui drasticamente a necessidade de recorrer à ocitocina sintética, com todas as vantagens que isso significa para o bem-estar físico e emocional da mulher e para bom começo de vida para a criança que acaba de nascer.

Texto de Filipa Lowndes Vicente,
in revista "Pais & Filhos" Janeiro/2008

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Campanha pela Amamentação




Já não é a primeira vez que várias actrizes brasileiras se envolvem nesta causa oferecendo o seu testemunho publicamente.
Neste vídeo, é a actriz e apresentadora Maria Paula que dá a cara e deixa-se filmar a amamentar a sua filha, enquanto explica que até aos 6 meses os bebés apenas necessitam de leite materno.

Gostava muito de ver algo do género por cá...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Homo Sapiens e a sua Cria

Encontrei este texto, cujo autor desconheço, ao acaso, na net, e simplesmente adorei lê-lo!
Isto porque, de forma inteligente, resume muito daquilo que aqui tenho tentado transmitir.
A verdade é que muitas vezes "esquecemos" a nossa condição de mamíferos, o que nos leva a sentir falsas "necessidades", criadas (e impostas) pela sociedade. E, mais importante, acabamos por complicar coisas que podiam ser muito simples e encontramos problemas onde eles nem sempre existem. Ao fazê-lo, outras necessidades, essas sim básicas, ficam por colmatar e entramos num ciclo...
Espero que gostem tanto como eu, e principalmente, que vos faça reflectir...


Homo sapiens e a sua cria:

Não deve ser fácil ser cria de homo sapiens no século XXI!
Este mamífero, quando nasce, traz instalado no cérebro um programa chamado “instinto de sobrevivência, do indivíduo e da espécie”. No entanto é dotado duma capacidade de armazenagem de dados imensa. Tudo o que se segue desde que nasce vai armazenar-se e estabelecer conexões entre os vários acontecimentos.
Mas portanto ,ao nascer, aquilo que está a funcionar é quase o mesmo que nos restantes mamíferos. Essa parte mais antiga do cérebro funciona de maneira muito semelhante, com reflexos de fuga ou aproximação que vão alterar o estado de funcionamento do organismo, alterando por exemplo a frequência cardíaca e respiratória, a sudação, o tónus muscular etc.

Uma cria de homo sapiens quando nasce ainda não sabe que está no século XXI. Está “à espera” de ter ali uma mãe mamífero, homo sapiens fémea, ou seja:
- que esteja quase 24h por dia ao lado dele,
- onde ele se encosta e se sente seguro pelo contacto com a sua pele,
- donde se vai alimentado frequentemente de pequenas quantidades de cada vez (porque assim é menos cansativo),
- que lhe massaja a barriga (provavelmente era lambendo que o faziam), activando os movimentos peristálticos do intestino
- que está calma no seu ninho, porque é isso que as suas hormonas mandam.

Mãe ansiosa significa, para este recém-nascido, perigo à vista. A mãe está tensa, músculos rijos, fácies contraída, frequência cardíaca aumentada… Estas informações sentidas por um ser hiperestésico que é (os sentidos todos muito apurados, porque não há ainda nada no cérebro que os distraia deles) criam obviamente uma resposta: chorar, chorar muito para pedir socorro, “mãe eu estou aqui, protege-me; restantes elementos da tribo venham ajudar”.
Só que esta fêmea vive no século XXI! Está ansiosa por uma infinidade de razões, entre elas o não saber o que fazer com aquele ser tão indefeso; nunca viu outras fêmeas com outras crias. E agora ele chora… isso activa também as partes mais arcaicas do seu cérebro mas estas emoções emitidas são completamente baralhadas por um córtex cerebral que se formatou durante anos para uma sociedade civilizada. E fica ainda mais ansiosa…
Que ciclo vicioso aqui se criou!
Não é fácil ser cria de homo sapiens!

domingo, 1 de junho de 2008

Ode à Minha Família*

Obrigada ao universo por ser mulher e por ter a oportunidade de sentir a força da vida em todo o seu esplendor durante o nascimento da minha filha.
Só queria que todos os partos fossem iguais ao meu.
Íntimo e arrebatador como um poema.

Estrofe

"Episiotomia? Claro que sim. Sempre. Andar enquanto faz a dilatação? Quando começarem as dores vai é ter vontade de deitar-se quietinha. Não sabe se quer epidural? Ah! Ah! Claro que vai querer. E se pretender um parto assistido por mim vai ter que ser marcado. Vai ter comigo à maternidade, num sábado ou num domingo e induzimos." Não. Decididamente não queria um parto com este obstetra por perto. A sorte é que eu já estava grávida. Depois deste discurso, dúvido que alguém tenha coragem de engravidar, tal o inferno que parece ser o parto. Valeu-lhe a sinceridade, ao contrário de outros médicos que vão tentando adiar a conversa do parto lá para as 36 semanas e depois vêm com histórias de que "o colo está verde" e "as ancas são estreitas" e blá, blá, blá, "você não sabe parir e ainda bem que me tem a mim".

Saí do consultório desolada. O corpo é meu. O parto é meu. Porque raio é que os outros querem ser a estrela? Depois de muito procurar encontrei uma rara obstetra que acreditou em mim e que me deu todos os incentivos para eu conseguir ter a minha filha da forma que tinha idealizado. Com calma e sem intervenções desnecessárias - soro, com ocitocina incluída, CTG contínuo, epidural sem eu ter pedido, episiotomia só porque sim, ou obrigatoriedade de estar deitada só para dar mais jeito ao médico.

Fiz o meu plano de parto - sabendo que era apenas um plano - e vivi a gravidez tranquila, preparando-me mentalmente para o grande momento. Imaginei-me a parir muitas vezes, quis ouvir todos os relatos (bons e maus para não ser apanhada de surpresa), vi muitos partos (na televisão, em documentários), li as histórias reais que circulam na internet e confiei nas boas experiências da minha mãe e da minha avó. "Se elas conseguiram, eu também consigo."

A única possibilidade de ter um parto como desejava era ir para um hospital privado. A obstetra garantiu-me que não haveria intervenções médicas à partida, mas, se houvesse algum problema, teria os equipamentos necessários à minha disposição. Seria a combinação ideal. Sentia-me confiante e prudente. Sabia que iria ser respeitada.

Antíestrofe

Acordei e notei um líquido morno nos lençóis. Supostamente ainda era cedo. 37 semanas e 6 dias. Senti uma água morna, transparente, mas nada que chegasse para me encharcar os pés. Na dúvida liguei para a doula, para a médica e para o Hélder, não me lembro por que ordem, e decidimos que o melhor era ir ao consultório ver o que se passava.

Juro que ao entrar no carro nem sonhava o que me estava para acontecer. Segui como se fosse apenas mais uma consulta de rotina, sentindo os habituais pontapés de bons dias na barriga. Assim que me viu a médica mandou-me pôr de cócoras para perceber que líquido era aquele. Mas nada. Tudo aparentemente seco. Segeriu-nos que fossemos dar uma volta para ver se acontecia alguma coisa. Estava um lindo dia de sol. O plano era ir até ao fim da rua e voltar mas a meio do caminho comecei a sentir exactamente aquilo que me tinham descrito que poderia ser o sinal de que a Catarina estava pronta: dores como se estivesse para me vir o período. Voltámos para trás, devagar, e interrompemos outra vez as consultas para avisar sobre a minha nova condição. Era uma sensação leve ainda. Segundo os habituais relatos de primeiros partos, teria ali entretenimento para muitas horas.

Próxima paragem: CTG. A enfermeira e o Hélder iam relatando as linhas do gráfico que saía no papel. 70, 80, 90. As contracções marcavam pontos à medida que eu sentia a minha barriga a ficar cada vez mais dura.
Algum tempo depois a médico voltou, mediu-me a dilatação e disse as palavras que me soaram como um tiro de partida: "Estás com seis dedos!". Lágrimas. Sorrisos. Gaguez súbita. Nervoso miudinho. Estava na hora. Isto está mesmo a acontecer-me!

"Se queres ir para o hospital, temos de ir já. Ou queres ficar aqui?" Num instante, imaginei-me a entrar no carro, imaginei o trânsito, chegar ao hospital, preencher papéis, perder a minha roupa e sei lá mais que maldades me poderiam fazer.
Decidimos ficar. Na sala destinada a fazer a dilatação antes de ir para o hospital, na sala onde se pode aprender a massajar os bebés, na sala onde já tinhamos pensado "que giro seria parir aqui".

De repente deixei de ser eu.

Os pensamentos voaram da minha cabeça e fiquei entregue ao meu corpo. A roupa foi-me saíndo pelas pernas e pelos braços sem eu dar conta. Um calor a correr-me pelas veias. Os olhos a fecharem-se para ser só eu e o meu bebé.
O silêncio. As mãos reconfortantes da médica, da enfermeira e do Hélder na minha pele. Eu em pé agarrada à balança que pesa os bebés. Eu sentada no banco de parir. Eu de gatas. Eu pendurada no pescoço do Hélder. Eu sem saber que coisa era aquela que estava a sentir. Umas ondas que de vez em quando me revolviam as entranhas.
O Hélder sempre ali. Enroscado em mim. Olhando-me nos olhos. Segurando-me. Mudo (tantas vezes eu lhe tinha pedido: "não me digas nada"). A médica e a enfermeira sentadas no chão, vestidas de branco e cor-de-rosa, sem sapatos, sem relógio. As consultas acabaram por hoje.
A música que eu escolhi. Está a tocar a música que eu escolhi. Um som ameno que me transporta para o aconchego da minha casa. Tantas vezes eu me imaginei a fazer-te nascer, Catarina, ao som desta música. Mas por mais que imaginasse, nunca suporia isto que me está a acontecer.
As ondas vão e vêm. Avisam primeiro. Começam pelo fundo da barriga para inundar o corpo todo em poucos segundos. Depois, a maré desce e tudo fica calmo. Respiro fundo e reparo que a canção diz "Dreaming my dreams with you". Só espero que isto corra bem. Só espero...

A médica encosta o CTG portátil à minha barriga. "O bebé está bem", diz-me baixinho.
Abro os olhos por um segundo e vejo mais um sorriso que me conforta. Chegou a minha doula. Lembro-me que falei com ela ao telefone antes de entrar na sala, mas não faço ideia do que lhe disse. Já não era eu.
Oiço os gritos que saem da minha boca e não os conheço. Não posso ser eu. Eu nunca gritei assim. Pareço uma leoa. Nua. Cabelos desgrenhados. Livre. Cheia de poder. Cheia de força. Cheia do mundo todo dentro de mim a querer saír.
Penso na Catarina. Como será ela? Como será vê-la? Tê-la ao colo. Chamo por ela.
Não tenho medo. Não tenho pressa. Não faço ideia há quanto tempo isto me está a acontecer. Sento-me no banco de parir, com os pés firmes no chão e encosto-me para trás, ao peito do Hélder. Foi o meu corpo que assim quis. Vejo a médica e a enfermeira sentadas à chinês à minha frente. Pedem-me que me solte, que me liberte. Deixo-me ir.
A Catarina já espreita. Já posso senti-la. Estico a mão e toco-lhe levemente o cocuruto. Eu toquei na minha filha! Sinto o bafo quente do Hélder na minha orelha. Sinto que ele está a sorrir. Rio-me com ele. É o primeiro momento-mais-feliz-da-minha-vida do dia de hoje.

As ondas transformam-se num incêndio. O meu corpo todo arde. A porta de saída é um anel de fogo. Grito mais alto e mais estridente do que a sirene dos bombeiros. Aí vem ela. A cabeça já está deste lado. És tão corajosa, Catarina.
Respiro fundo. Espero. Tu é que decides quando queres entrar nesta vida. Enquanto te preparas, faço-te mais uma festa. São ondas, são marés, são fogos, são labaredas, é frio, é calor. É o mundo todo a saír-me de dentro directamente para me encher os braços, o peito e a vida.

Minha filha.

Finalmente tenho-te deste lado. Serena. Quente. Macia. Forte. Maravilhosa.
Os braços do Hélder por cima dos meus. Não existe mais nada. Somos só nós os três. E eu agora de olhos bem abertos. E o corpo que volta a ser meu para te poder sentir com todos os poros.
Abres tu também os olhos. Olhas-me enquanto procuras a mama. Parece que toda a vida fizemos isto. Parece que toda a vida nos conhecemos.
Aos poucos volto a ser o que ainda resta de mim. Estou cansada mas cheia de energia. Tenho fome. Tenho vontade de ir à rua gritar "Vejam bem o que me aconteceu!"
O pediatra, chamado de propósito observa-te ao meu colo.
Admira-se ao ver-te mamar com tanto vigor. Ausculta-te sem te tirar dos meus braços. "Está super!"
Deitamo-nos num colchão. Pai, mãe e filha juntinhos, pele com pele. Vejo que o sol continua a brilhar lá fora.

Epodo

Os meus desejos são ordens. Apetece-me pão com manteiga e um sumo de fruta. Num instante, aparece uma bandeja com o melhor pão com manteiga do mundo, sumos frescos e uma broas tão saborosas como o momento.
Estou no máximo da adrenalina.
Parece que tenho uns elásticos a prenderem-me os cantos da boca às orelhas. Médica, enfermeira, doula e pai também sorriem, orgulhosos. Só tu descansas, imune ao que te espera.
A prima Lúcia junta-se a nós. Foi ela que trouxe a minha mala da maternidade. Foi graças a ela que pude ser embalada pela música doce dos Cranberries.
Passamos o tempo a observar-te, a tocar-te, a cheirar-te, a amar-te. É impossível dormir, tal é a excitação. Ao final da tarde, estreias o teu primeiro fato, a tua primeira fralda. A minha roupa também volta ao meu corpo. Devagar, a vida recupera o ritmo.
A caminho de casa parece-me estranho que os carros continuem a andar, os prédios se mantenham de pé, as pessoas permaneçam indiferentes, depois da fantástica aventura que acabou de me acontecer.
Entro na minha sala ainda de dia. A doula certifica-se de que não nos falta nada. A médica irá visitar-nos no dia seguinte.
A família mais próxima faz questão de nos ir dar um beijinho. Estão doidos com a nossa proeza. Como uma sopa deliciosa feita pela minha mãe.
24 de Maio de 2007. 14h07. Coordenadas de um dia perfeito. Abres os olhos, mamas e voltas ao teu sossego. Dormimos os três na nossa cama. Exaustos. Felizes. Apaixonados. Completos. A noite inteira abraçados. A minha família.

*Título "roubado" à canção "Ode to my family", dos Cranberries

Texto de Patrícia Lamúrias,
in revista "Pais & Filhos", Maio/08

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